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S e l e c i n h a P e r r o n h a
Reflexões sobre o pútrido caldo de cultura do futebol
O nosso preferido jogo de bola não é, e não mais será, o mesmo que nos encantou e fez-nos apaixonar.
Em conversa digital com uma pessoa querida que, compreensivelmente, chateada, lamentara a vergonhosa (pelo modo como se deu), mas não inesperada, desclassificação do Brasil pela derrota por 2x1 para a Noruega, na Copa do Mundo de Futebol Masculino FIFA 2026, nos EUA – juntamente com o México e o Canadá, sedes dessa edição da competição quadrienal –, carinhosamente, respondi:
Dileta e ingênua amante do futebol,
Observando, atentamente, o grande quadro e perscrutando as estruturas do nosso antigo desporto predileto, constatamos que está tudo errado.
A FIFA e a CBF são organizações obscuras que, notadamente, priorizam o âmbito negocial em detrimento do desportivo. As (con)federações e os clubes, idem.
Os atletas estão alienados; majoritariamente, os pouquíssimos que passam nas excludentes peneiras – da vida e do esporte – e conseguem se profissionalizar, mal recebem o suficiente para sobreviver, mas não se organizam para lutar por seus direitos.
Os que chegam ao topo ganham fortunas e, salvo raras exceções, não se importam com os demais.
As tenebrosas bets – apps de apostas (via de regra, transnacionais) com seus famigerados influenciadores, pagos a peso de ouro (de tolo, para os menos aquinhoados) – estão a dominar o patrocínio e as mídias, com a cumplicidade das entidades desportivas e o acobertamento de parte das instituições e autoridades jurídicas e políticas. A troco de quê?
Procedendo em proveito (im)próprio, flagra-se em negócios nebulosos quem comanda o futebol, das menores às instâncias principais, atuando como serviçais dos poderosos de plantão.
No subterrâneo andar da fuleiragem, a disputa interna entre as gangues pelo poder na CBF – empresa com vários ex-presidentes processados (e alguns condenados) por um extenso rol de desmandos e crimes diversos – levou a infrutíferas mudanças no comando da seleção, sem critério lógico para além dos interesses de momento.
Estupefatos e agônicos, assistimos a jogadores infantilizados, analfabetos políticos, mal formados, fúteis, aculturados, com precário senso de coletividade, emocionalmente desequilibrados e, aparentemente, sem brio – vacilantes e longe de qualquer brilho que não seja o de suas joias reluzentes – a desorganizada e tropegamente vagar em campo, bisonhamente errando os mais básicos fundamentos: domínio de bola e passes curtos.
Racionalmente, seria inverossímil lograr êxito sem a confiança mútua e a inteligência coletiva potencializadas por nossas melhores (e ora ausentes) qualidades: a espontânea criatividade, a seminal malemolência e a alegria de jogar.
Muito menos, sem liderança moral, técnica e esportiva na equipe.
No caos da desordem institucional e em nome de uma pretensa (porém, nunca verdadeiramente almejada) organização, num carcomido ecossistema machista e elitista, profunda e completamente degradado, perde-se, inescrupulosamente, a nossa maior riqueza, sem que a possamos recuperar – até que não haja mais como resgatá-la.
Que dolorosa constatação; e quão imensuráveis asco e vergonha dessa esdrúxula e nefasta construção – lastimosa distopia normalizada.
Lamentavelmente, embora a torcida cada vez mais se decepcione e entristeça, boa parte ainda se apega à ilusão.
E, pasme, há quem se rasgue pela selecinha e seus ídolos de pés de lama apodrecida.
Enquanto isso, na surdina ou escancarando a ostentação, cartolas e sócios ocultos se locupletam sem nenhum pudor.
Tal configuração, portanto, não ensejaria qualquer sucesso futebolístico – ao contrário dos gigantescos lucros dos capi e seus financiadores.
Estaria, assim, o ludopédio condenado ao inexorável, inclemente e trágico fim que sua tétrica condição atual parece indicar?
Ou, nos seus estertores, a nos livrar dessa pungente desgraça, inevitável e graciosamente, surgirá uma nova, poderosa e bela expressão do lúdico prazer de brincar com a bola?
S. R. Tuppan ⚡
* Primeiro artigo de uma série sobre o tema.
🙂
Selecinha é um termo popularizado pelo colunista José Simão, em seus textos crítico-humorados no jornal Folha de São Paulo.
Perronha é uma gíria regional, principalmente do Nordeste do Brasil (especialmente Pernambuco), que significa sujeito que joga mal futebol ou pessoa pouco habilidosa no esporte.
O termo é, frequentemente, usado em contextos informais e humorísticos para descrever alguém com pouca técnica ou desempenho inferior em partidas de futebol.
Embora menos conhecida nacionalmente do que termos como "perrengue", sua definição está consolidada em dicionários regionais (vide o Dicionário de Pernambuquês) e na cultura local, servindo como uma crítica leve ou zombaria sobre a baixa qualidade do jogo de um colega ou adversário.
— Informação da Leo AI do Brave.
★
P. S.: Conheci o termo perronha no início da segunda metade dos anos 1980, quando cursava a Faculdade de Educação Física e Técnica em Desportos da Universidade Federal de Pernambuco, no Recife, e jogava Futsal no time da UFPE e no juvenil do saudoso Clube Nassau, de Olinda.
— SRT ⚡
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