quinta-feira, 8 de setembro de 2016

Atrasilda? 🌟 Conto

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Don Quijote de La Mancha, de Miguel de Cervantes






O clima não estava nada bom na ‘Grande Pequena’ ou ‘Terra do Se e do Quase’ ou ‘País do Regresso’, no modo jocoso como era tinhosa e vulgarmente chamada pela Matriz a mais criativa Província e maior fornecedora de matéria-prima do Sistema.

Até há pouco próspera e autoconfiante, com sucessivos e autônomos governos progressistas, acabara de sofrer um golpe e vira-se, uma vez mais, dominada por corruptos, gananciosos, entreguistas, subservientes à Matriz.

Esses inescrupulosos seres semifictícios – nos quais inexiste qualquer boa intenção ou, sequer, resquício de bom sentimento para com o semelhante ou o lugar onde nasceram e do qual, desavergonhada e vorazmente se locupletam; insaciáveis no mesquinho afã de defender seus interesses inconfessáveis –, em delírio megalomaníaco, quase que num átimo, nela pretendiam instalar um bizarro tempo paralelo, fundindo a Idade das Trevas com a Idade da Pedra Lascada.

Uma bem orquestrada trama vencera, parecia. Instigado nas mídias, artificial e meticulosamente implantado, cultivara-se em significativa parcela da população o ódio irracional a tudo que fosse, lembrasse ou parecesse o lado oposto, na semiótica síntese da cor: Vermelha!

Naqueles idos de pesar e nada saudosa memória, multidões em manadas aderiram ao primarissímio, simplório, mais-que-grotesco e venal verde-amarelismo, superficial e providencialmente reanimado pelas oligarquias, para deleite das rançosas e prestativas viúvas das muitíssimo odiosas ditaduras.

Na ausência de legítimo prócer, essas legiões de ignaros ignotos tinham como ídolos notórios embusteiros, aspirantes a um lugar na casa-grande, famosos decadentes, membros facciosos da magistratura, uma rama de pueris e patéticas subcelebridades a que – na indubitável falta de lucidez e bom senso –, inadvertida e despropositadamente, chamavam de líderes (sic).

Essas levas de filhotes de proveta da ignomínia sofrem do terrível mal que o neologismo, precisa, infeliz e adequadamente, sintetiza e define: midiotia.

“Mas a vida é (sur)real e de viés” – parafraseando o compositor popular.

Embora parecesse vitorioso, aquele desonrado e desonroso (des)arranjo intestinal, digo, institucional, em pouco tempo veio a naufragar, como sói acontecer àquilo que não possui legitimidade, por não ter raiz e nenhuma sustentação no cerne da vida real, por não se basear na íntima substância de tudo: a Verdade.

Graças às lúcidas lutas organizadas e, bravamente, encampadas pelas camadas mais esclarecidas e inconformadas da sofrida, porém vivaz, população, após aquele trágico e, relativamente, breve período de obscuridade, superando o ultraje, Atrasilda retoma o seu rumo, a reconquistar, indômita, a então fragilizada autoestima e a urgentíssima autonomia, a fim de tornar-se igualitária, a construir-se fraternal e solidária, fundada na Beleza e na Justiça.

Segue, assim, a concretização do Sonho Coletivo a realizar-se em práxis, a consolidar perene, consciente, profundamente, a sua tão almejada e legítima autodeterminação.

Inspirada na milenar Sabedoria dos Povos Originários, no seu, desde sempre, saudável e lúdico viver pleno em Harmonia Consigoentre Si e com a Natureza, um respeitar-se e proteger-se mutuamente, sendo pura, vera e naturalmente uma Grande Família Comum, sem dominador nem dominado, onde as Crianças são por todos cuidadas, as Mulheres, igualmente consideradas, e as Ançiãs e os Anciãos, Guardiães dos Saberes Sagrados, nossos inspiradores e admirados Guias das Novas Gerações.

Para uma novíssima era, que a Vida Nova anuncia, poeticamente a reinventar-se, um antigo nome novo: Utopia!


S. R. Tuppan ⚡

Sete de Setembro de 2016.



O Equilíbrio do Mundo  Arte Yanomami 

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